quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Como se constrói a memória de crianças que vivem em abrigos?

ONG promove atividades que associam literatura à reconstrução do passado de crianças e adolescentes nessas instituições

Para o casal Conchita Ferreiro e André Magalhães adotar uma criança mais velha não parecia ser um desafio intransponível. Há um ano e meio, eles acolheram em sua casa a pequena Helena. Na época, a menina tinha quase três anos e trouxe na bagagem algumas lembranças. As melhores delas, segundo a mãe adotiva, estão em um álbum produzido pelo Instituto Fazendo História no abrigo onde a pequena estava. 
“Eu não esperava que fosse receber qualquer registro do passado dela na instituição. Mas aí o pessoal do abrigo nos entregou o álbum que lembra um diário. Tem fotos, legendas e histórias que contam como era a rotina da Helena. Mais legal ainda é que ela reconhece as pessoas, pergunta pelos amigos. Esse vínculo a gente procurou manter”, diz Conchita. O casal leva a filha para visitar o abrigo sempre que possível, e aprendeu a lidar com a história que antecedeu a adoção.

A memória nos abrigos

Isabel Penteado, psicóloga e coordenadora técnica do Instituto Fazendo História, afirma que recuperar a trajetória de crianças e adolescentes abrigados é uma necessidade que hoje começa a ser melhor compreendida: “Antes, chegávamos aos abrigos e a proposta parecia inovadora demais porque se tinha a ideia de que a história deles devia ser apagada. Ainda era muito forte a cultura da revelação. Agora isso é parte de um processo”. 

De acordo com a juíza Dora Martins, da Vara da Infância e Juventude de São Paulo, “muitos pais adotivos se equivocam ao achar que adotando uma criança ela vai passar uma borracha na sua vida e ser agradecida para sempre por esse ato de bondade”. “O que a pessoa precisa entender é que cada criança tem sua história. Por mais novinha que seja, ela tem uma história de vida intrauterina, ouviu a voz da mãe, sentiu seu cheiro.”

Isso também vale para os casos em que a história da família biológica é sensível e mais presente. “Como começar um relacionamento se você considera esse filho como algo depreciativo? 'Ah, o filho da craqueira', por exemplo? Quem adota recebe o filho, sua história, e lhe confere um novo significado, sem desrespeitar ou anular o que passou; sem impor qualquer estigma, sem julgá-lo”, diz Dora. 

Além disso, só a minoria das crianças que estão em situação de abrigamento é encaminhada para adoção. “A maioria é reinserida na família biológica ou extensa (tios, avós, primos etc) e vive nos abrigos em caráter temporário. A adoção é uma medida excepcional. Outros passam a vida toda nessas instituições e também é importante registrarem suas referências”, afirma Isabel.

No caso de Helena, a memória do abrigo foi se juntando aos poucos com as novas experiências. “No começo, fazíamos mais visitas à instituição porque eu não queria que tivesse um corte brusco entre tudo aquilo que a Helena conhecia e o que ela estava descobrindo com a gente”, diz Conchita. Com o tempo, as visitas foram se tornando menos frequentes, mas o vínculo ainda existe e as histórias permanecem. “Ela gosta de ver o álbum e ainda aproveitamos as dicas que aprendemos com ele. Compramos alguns brinquedos já sabendo que ela gostava de barulho e também sabemos desde aquela época qual a preferência da Helena quanto aos programas de TV. Hoje ela também gosta muito de teatro, tanto de ir assistir como de fazer parte das peças”, diz a mãe.
Fazendo Minha História

A aproximação com os principais interessados na iniciativa se dá por meio dos livros. “A leitura é a porta de entrada para falarmos da nossa própria vida”, afirma a coordenadora da ONG Fazendo História. Dinâmicas de leitura e construção do álbum são feitas por voluntários. Eles são treinados pelo Instituto e acompanham duas crianças ou adolescentes em um mesmo abrigo durante o período de um ano. Ficam uma hora por semana com cada uma delas e nesse tempo leem livros indicados para sua faixa etária e constroem o álbum de recordações. 
 
voluntariado_Fazendo_história (Foto: Divulgação / Instituto Fazer História)
“Lendo um livro, a criança ou adolescente pode despertar para alguma situação pessoal e querer registrar isso no álbum. Também pode falar sobre uma festa que teve na instituição, a visita que recebeu da mãe ou a relação com os amigos.” As formas de expressão são livres e a história vai se construindo apoiada no gosto pela leitura e no conhecimento de outras narrativas.
Além das sessões com os voluntários, os abrigos participantes ganham uma biblioteca com até 300 títulos infanto-juvenis. “Instruímos os funcionários sobre como estimular a leitura, deixar os livros ao alcance das crianças e preservar o acervo.” Isso é feito sem nenhum custo para os abrigos.

Como tinha dois anos e oito meses quando foi adotada, Helena construiu o seu álbum nas sessões do programa Palavra de Bebê, voltado para crianças de 0 a 3 anos. “Nesse caso, trabalhamos somente com voluntários capacitados, seja nas áreas de psicologia, pedagogia ou psicoterapia, porque lidar com os bebês é uma tarefa mais delicada”, afirma Isabel.

O trabalho é acompanhado por dois voluntários dedicados ao mesmo grupo de bebês e são os próprios funcionários do abrigo que dão voz aos pequenos na construção do álbum de histórias. “Nos álbuns, os funcionários carimbam as mãos e os pés das crianças com tinta; colam fotos; colocam datas importantes como o nascimento do primeiro dentinho e escrevem sobre coisas que eles gostam.”

Segundo Conchita, foi no álbum que ela e o marido também descobriram que Helena chegou ao abrigo sem nome. “Lemos ali que ela era chamada de R.N. (recém-nascida) até os seis meses, e que foi durante uma visita de uma juíza da Vara da Infância que ela ganhou o nome. Foi a juíza que escolheu o nome da Helena”, diz a mãe.

No ano passado, a ONG também lançou um projeto para os pais adotivos. “Percebemos que eles sentiam falta de um espaço para compartilhar seus medos e angústias e organizamos a primeira edição do Histórias Cruzadas.” Nos encontros os pais dividem experiências, realizam atividades propostas pelo Instituto e escrevem suas histórias junto com as dos filhos. Conchita e André sempre gostaram de fazer esse exercício em casa. “Desde que a Helena chegou fazemos um álbum nos moldes daquele que ela trouxe do abrigo. Colamos fotos e contamos nossas histórias. Continuamos registrando os passos dela também.”

 

Por Marina Salles/Revista Época

INCLUSÃO X EXCLUSÃO: DO QUE ESTAMOS FALANDO?

As múltiplas formas de exclusão social, bem como as mudanças na forma de seu combate, têm transformado a noção de igualdade e diversidade entre o século XX e  XXI. Fala-se muito em inclusão sem que se tenha o cuidado de entender que para incluir é necessário compreender as múltiplas formas de exclusão que permeiam o nosso cotidiano. Sobretudo no que diz respeito ao Sistema Escolar. 
Embora a inclusão escolar seja um tema que tem sido consideravelmente discutido, sua complexidade possibilita uma série de discussões que não consegue  esgotar seu repertório.
Paulo Freire trabalhou a questão da exclusão em diversas obras, sempre foi sua preocupação entender a fragilidade do educando para incluí-lo de fato enquanto sujeito de sua história. No seu livro “Pedagogia do Oprimido”, obra escrita no ano de 1968,              Freire inova ao apresentar o oprimido como sujeito capaz de opinar de modo fundamental na construção de uma pedagogia . Ele discutiu de modo claro, os desejos e confusões que o opressor consegue despertar no oprimido, chegando a confundir os objetivos de suas lutas. Contudo, acreditava que propiciar autonomia a esse público, seria a forma correta de alcançar a educação.a que atendesse realmente às necessidades do seu meio.
Quando falamos em inclusão, temos idéia de quão abrangente ela é? Pode-se perceber claramente quando o assunto é inclusão, que os professores se reportam especificamente para os alunos com deficiência, esquecendo que desde Salamanca a expressão educação inclusiva tem um alcance que vai de pessoas  com dificuldades de aprendizagem decorrentes de condições econômicas e socioculturais, até pessoas com algum tipo de deficiência. Crianças negras, adotadas, obesas, com qualquer característica que as diferencie do grupo, são excluídas todos os dias nas nossas salas de aula, sem que os professores percebam que tais alunos também necessitam ser incluídos.
 A exclusão muitas vezes se dá de modo sutil, sobretudo quando nos reportamos às salas de aulas, onde alunos com trajetórias diferenciadas têm tratamento e são exigidos de modo absolutamente igual; ou mesmo quando existe um tratamento diferenciado que por não ser pensado em sua totalidade, acaba marginalizando o indivíduo ao situá-lo à margem das atividades cotidianas e ainda assim, acredita-se que esses alunos estão sendo incluídos no sistema escolar.
A questão é muito mais complexa e exige uma abordagem minuciosa para determinadas situações. O que não podemos fazer é tratar de um tema tão abrangente como se estivéssemos falando simplesmente de uma postura paternalista de inclusão sem uma compreensão da sua profundidade.
Perceber e respeitar a diversidade não é uma tarefa simples, o ensino tradicional nos ensinou a trabalhar com grupos homogêneos, esquecendo que na realidade tal homogeneidade inexiste. Perrenoud discute a diferenciação entre os alunos citando Bourdieu quando trata da bagagem cultural que cada indivíduo traz e como essa diferença poderá familiarizar ou exilar o aluno em função do que cada um apreendeu ao longo de sua vida, analisando os vários aspectos que permeiam a questão. Tratar os alunos como iguais em direitos e deveres , quando na realidade é evidente que são muitas as diferenças entre eles, acaba por favorecer uma parte deles em detrimento dos demais. O que traz á tona a discussão de que a diferenciação poderá beneficiar as elites, dependendo do modo como o profissional desenvolva a sua prática.  Em seu livro Pedagogia na Escola das Diferenças, ele  defende que os percursos são necessariamente diferenciados, ainda que não pareçam a primeira vista, uma vez que a história de vida, as aspirações  e até mesmo a atenção que o aluno tem a determinadas aulas interferem no que cada um aprende,sendo  portanto impossível avaliar o percurso de cada aluno. Desse modo, afirma que toda proposta didática será inadequada para uma parcela dos alunos. Portanto, faz um alerta para que jamais se espere por resultados espetaculares, mas que se tenha consciência de que trata-se de um longo percurso em que nenhum esforço é perdido.




Doutorado em Antropologia Social recebe inscrições até o dia 26

O Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) recebe até o dia 26 de janeiro inscrições para a seleção de doutorado. As aulas do curso estão previstas para serem iniciadas em março.
 
O programa oferece seis vagas para candidatos que comprovem, por meio de diploma ou de declaração, conclusão do curso de mestrado. Os candidatos que apresentarem declaração de conclusão de mestrado, se aprovados, são obrigados a entregar a cópia do diploma na secretaria do programa no ato da matrícula.
 
Para se inscrever os interessados devem acessar o SIGAA, por meio do link: https://sigaa.ufrn.br/sigaa/public/programa/portal.jsf,preencher o formulário de inscrição e encaminhar para a secretaria do PPGAS, pessoalmente ou via Correios, a documentação exigida no item 4 do edital da seleção.
 
O endereço para o envio da documentação via Correios é: UFRN - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA); Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social; Av. Senador Salgado Filho, 3000 - Lagoa Nova; sala 921; Campus
Universitário; CEP 59.078-970 - Natal/RN.
 
O edital com outras informações pode ser consultado nos seguintes links:
https://sigaa.ufrn.br/sigaa/public/processo_seletivo/lista.jsf?aba=p-processo&nivel=S ou: http://www.posgraduacao.ufrn.br//ppgas .  
Por Agência de Comunicação da UFRN - AGECOM

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Universidade portuguesa oferece oportunidade de trabalho em evento internacional

Universidade de Évora, em Portugal, selecionará professoresalunos e profissionais da área de psicologia para participar do 1º Congresso Ibero Afro Americano de Psicologia, que acontecerá nos dias 15, 16 e 17 de abril de 2015.
 Os candidatos devem inscrever os seus trabalhos até o dia 31 de janeiro de 2015, através do site oficial. Após efetuar a inscrição online e ter recebido a resposta à proposta submetida, o participante deverá pagá-la até o dia 28 de fevereiro. Os textos completos devem ser enviados até o dia 15 de março.

As áreas temáticas dos eventos são: Ensino Superior, Formação de Psicólogos, Inclusão Educativa e Social, Psicologia e Saúde, Aprendizagem e Desenvolvimento ao Longo da Vida, Formação e Transição para o Mundo de Trabalho, Interculturalidade e Psicologia e mundo atual. 

Sobre o evento
3º Internacional Conference Learning and Teaching in Higher Education e o 1º Congresso Ibero Afro Americano de Psicologia têm como principal objetivo reunir profissionais de Portugal, Espanha, Países da Comunidade de Língua Portuguesa (CPLP) e Países da América Latina, para compartilhar conhecimento em varias áreas temáticas, com reflexo no desenvolvimento humano e nos desafios do mundo globalizado.
 Fonte: Universia Brasil

Walfredo Gurgel lançará revista científica em março

Funcionários e estagiários do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, a partir deste mês, poderão publicar artigos científicos, trabalhos de conclusão de curso, projetos e dissertações acadêmicas na revista que está sendo criada pelo Núcleo de Educação Permanente (NEP) e Assessoria de Comunicação desta unidade hospitalar. A previsão de lançamento é para o dia 31 de março, data em que se comemora o aniversário de 42 anos do Walfredo Gurgel. A revista terá periodicidade bimestral, contará com oito páginas e a tiragem será de 1.000 exemplares por edição.

Anualmente, um elevado número de estudantes passa pelo HMWG nas mais diversas áreas assistenciais ou de serviços, além de estágios e visitas técnicas. São, principalmente, estudantes de nutrição, psicologia, medicina, fisioterapia, serviço social, radiologia, dentre outras áreas. No ano passado, o Walfredo Gurgel recebeu 2.754 alunos de instituições de nível superior e 947 de escolas de nível médio, além de 75 visitas técnicas. Deste total, ainda foram elaboradas 16 pesquisas acadêmicas.

A diretora geral do HMWG, Maria de Fátima Pereira Pinheiro, é uma das incentivadoras do projeto e vê com bons olhos a iniciativa de ambos os setores. “É muito importante que toda a produção intelectual baseada em nossa assistência seja publicada e fique registrada de forma permanente. Muitas faculdades e escolas técnicas usam este hospital para trabalhos diversos e, muitas vezes, este conteúdo não nos é repassado de volta”.

Segundo a fisioterapeuta do NEP, Rejane Xavier, qualquer funcionário ou estagiário do hospital está, desde já, apto e convidado para publicar seu trabalho na revista. “Vamos marcar uma reunião para explicar como se dará o processo de publicação e recebimento dos trabalhos, já no início de fevereiro”, explicou.

A psicóloga do NEP, Joana Darc Araújo, diz que a distribuição será direcionada principalmente às universidades e escolas técnicas que contribuírem com material para a produção da revista. “Além desses parceiros, também enviaremos edições para outros hospitais, serviços de saúde, outros Núcleos de Educação do RN, enfim, todos os serviços que atuarem no ramo da educação”. A publicação ficará, a cada nova edição, disponível na biblioteca do servidor, no Núcleo de Assistência à Saúde do Trabalhador (Nast), para consulta e leitura dos servidores.
Por Assessoria de Comunicação - ASCOM/SESAP
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UFRN sedia encontro Norte e Nordeste de Estudantes de Pedagogia

“Educação popular: elementos para repensar a pedagogia”. Este é o tema do 12º Encontro Norte e Nordeste de Estudantes de Pedagogia (ENNOEPe), que acontece, de 19 a 23 de janeiro, no Campus Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O encontro é voltado à discussão acadêmica, política e cultural sobre a educação brasileira no âmbito das universidades e dos movimentos populares e é realizado com o apoio do Centro Acadêmico de Pedagogia Paulo Freire, da UFRN. Na programação, consta a realização de palestras, oficinas, apresentações de pôsteres e mesas-redondas, com a participação de estudantes e de professores do Centro de Educação da UFRN e de outras universidades da região Nordeste.

As inscrições para ouvintes podem ser feitas até a data de início do encontro, 19 de janeiro, no site do ENNOEPe:http://ozildosegundo.wix.com/ennoepenatal#!inscricao/cjn9. Podem submeter inscrição estudantes de Pedagogia (licenciaturas e graduações). As taxas de inscrição se dividem em grupos: R$ 110, com alojamento e sem alimentação e/ou sem alojamento, mas com direito à alimentação; de R$ 135, com direito a alojamento e alimentação; e de R$ 95, sem alimentação e alojamento.

Confira a programação completa do encontro no site: http://ozildosegundo.wix.com/ennoepenatal .
Por Agência de Comunicação da UFRN - AGECOM

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

De volta às reflexões...

Durante quase dois anos estive envolta em tantas atividades que acabei por me afastar das reflexões interessantes acerca da educação, sociedade, conhecimento... Enfim, distante do blog. Na verdade, esse período abriu as portas de outras faces do conhecimento, um olhar para a saúde coletiva, diversidade, equidade... Um mundo de saberes e práticas que inundou os meus dias e certamente, me fez repensar várias questões. Considerei finalmente, que é hora de voltar a compartilhar essas experiências e assim, dar uma nova roupagem ao blog que passará a ser mais dinâmico e inovador. Vamos conversando...